Entrevista com um Sado-Fetichista

Edu Por:   em 10/12/2009 | Sugerir este artigo por e-mail Imprimir post

Desta vez tivemos o prazer de entrevistar o @escravoroger_rf, um de nossos leitores que é adepto a práticas BDSM.

Edu: Qual sua idade? Há quanto tempo pratica dominação/submissão?

Roger: Trinta. E pratico (ou praticam em mim, depende do ponto de vista) desde os dezenove anos, quando conheci minha primeira e atual Dominadora, a Rainha Frágil. Na verdade, por volta dos dezesseis, dezessete anos, pratiquei um pouco de auto-tortura: me aplicava palmadas com chinelos, pingava vela em mim, colocava pregadores-de-roupa em meus mamilos, etc.

Foi uma fase passageira. Depois de um tempo, fazer essas coisas em mim mesmo perdeu a graça. Era como tentar fazer cócegas em si próprio. Tempo depois percebi o porquê. O barato para mim não é a dor, mas sim ser subjugado, estar a mercê dos desejos e caprichos de uma mulher. A dor é apenas o meio, não o fim.

Edu: Alguém da família ou trabalho conhece este seu lado ou reconheceu na internet?

Roger: Por um descuido meu, minha família descobriu essa minha “vida”. Claro, foi aquele choque. O engraçado é que o fato de eu apanhar e ser humilhado por uma mulher e GOSTAR disso não assustou tanto. O grande medo dela foi de eu estar envolvido com drogas! (Risos) Depois de sentarmos e conversarmos bastante, minha família se tranqüilizou um pouco. Eu tenho muita sorte dela ser muito compreensiva. Foi como conversar sobre sexo. Demonstrei que éramos pessoas responsáveis, que sabíamos o que estávamos fazendo e que nos cuidávamos. Obviamente, de início foi difícil aceitar essa relação que tenho com a Rainha Frágil, porém hoje Ela é muito querida pela minha família.

Edu: Como tudo começou?

Roger: Boa pergunta! Tenho fantasias desde uns seis, sete anos. Imaginava minhas amigas sentando em mim, me obrigando a brincar nas suas brincadeiras. Adorava quando me pegavam no pega-pega, “quente frio”, quando era obrigado a “pagar prendas”, etc. Eram sempre fantasias de submissão. Mais ou menos aos doze, também comecei a fantasiar com minhas amigas me maquiando e me obrigando a usar lingeries e roupas femininas.

Com treze, catorze anos veio aquele baque. Descobri o termo “Sadomasoquismo”. Devo ter visto em alguma reportagem na TV. Li mais a respeito no dicionário e em enciclopédias. “Ah, então o que eu gosto de imaginar (eu não sabia que eram “fantasias), o que sinto tem nome???”. E de repente, várias coisas começaram a fazer sentido. Fiquei extasiado.

Com dezesseis é que comecei a ter fantasias masoquistas, com mulheres me machucando fisicamente. Nessa época que o tesão começa a explodir, ficava atento a qualquer cena ou sugestão S&M. Chegava assistir a filmes ruins só porque exibiam alguma cena implícita de sadomasoquismo, geralmente retratado de forma caricata ou negativa (associado a crime, drogas, loucura e por aí vai). Ficava acordado até altas horas da noite para assistir o Cine Privet (eita!) na esperança do filme, mesmo sendo vagabundo, exibisse alguma cena S&M legal, mesmo que de leve. Até cenas de desenhos animados me inspiravam!
Eu era apaixonado pela Maligna, do desenho do He-Man, e pela Bianca Duprê, da “Turma da Pesada”. Seu apaixonado motorista era meu herói.

É, qualquer migalha servia.

Com dezoito, finalmente passei a acessar a Internet a partir do meu computador.

SANTA INTERNET!!!

Minha vida virou de cabeça para baixo. Pesquisava TUDO que podia sobre sadomasoquismo. Descobri que havia mais gente como eu do que eu pensava! MUITA GENTE! Não apenas pessoas realizando fantasias S&M, mas investindo também! Descobri por exemplo a OWK (www.owk.cz) um verdadeiro reino dedicado à Dominação Feminina, uma Disneylândia dos escravos.

Descobri principalmente como havia seriedade por trás disso tudo. Gente se organizando, trocando experiências e debatendo. Topei com os termos BDSM (Bondage/Disciplina, Dominação/Submissão, Sadismo/Masoquismo) e SSC (São, Seguro e Consensual), que é o que nos separa de maridos violentos, loucos e psicóticos.

Foi como ver vários contos de fadas sendo realizados.

Também descobri é claro as salas de bate papo. A sala “Fetiches” da extinta ZAZ, onde conheci uma galera boa e enfim fui finalmente dominado. Virtualmente é verdade, mas foi uma experiência fantástica.

E foi graças à Internet que com dezenove anos, conheci a Rainha Frágil, numa sala de bate papos da Mandic. Uma dominadora aqui? Em Fortaleza???

Após nos conhecermos melhor via chat, nos encontramos pessoalmente e, conversa vai e conversa vem, fui para a casa dela experimentar.

(Ir no primeiro encontro para a casa ou motel com uma(a) Dominador(a) não é recomendável. Sorte a minha que a Rainha Frágil é uma pessoal séria, gentil e principalmente paciente. Entusiasmado e inexperiente, eu era a vítima perfeita para pessoas de má fé, que infelizmente também existem no meio BDSM).

Todo empolgado, fui com aquele papo de “Eu faço TUDO o que você quiser! Eu agüento!”. Experiente, Ela não se convenceu. Abaixou minhas calças, pegou uma palmatória e… foi quando fiz a minha maior descoberta:

“DÓI PRA CARAMBA!!!”

Na terceira palmada pedi para parar. Fiquei constrangido. Ela caiu na gargalhada. Eu não ia suportar tudo assim de uma vez só. Tinha que ser devagarinho. Um treinamento. Passamos a nos encontrar com uma certa freqüência e Ela aos poucos foi me introduzindo naquele Universo, trabalhando e expandindo meus limites gradualmente.

De início, nossa relação era exclusivamente BDSM. Nada mais. Com o tempo, em nossas conversas, percebemos outras afinidades: artes plásticas, filmes, música, etc. Começamos a sair a cinemas, exposições. Nossa relação evoluiu para uma amizade e em pouco tempo para um romance.

E é isso. Onze anos se passaram e continuamos juntinhos.

Edu: Já aconteceu algum acidente?

Roger: Alguns, entretanto nada grave.

Bem… uma vez minha quase botamos fogo num motel.

Explico: soubemos de um motel que possuia uma “Suíte Fetichista”. Chegamos lá era um fetiche vagabundo. Basicamente um tuli preto acima da cama e nesta umas algemas, umas flores e um chicotinho besta. Ok, para não fazermos viagem perdida, brincamos por lá mesmo. A Rainha Frágil me amarrou, me vendou e me bateu um pouco. Depois de alguns minutos, ouço Ela exclamar algo e logo em seguida me soltou. O motivo: ao pingar vela em mim, a levantou para o alto e só então lembrou-se do tuli sobre a cama. Quase encosta a chama nele!

A partir desse dia, nunca mais saímos sem uma tesoura. Vai que Ela tivesse de me soltar rápido?

Edu: Como é sua relação com sua “dona”?

Roger: Legal você ter usado “dona” entre aspas. Afinal, Ela não é minha dona de verdade, não possuímos nenhum contrato, nem Ela tem carta de posse sobre mim ou coisa que a valha. Somos dois namorados que curtimos realizar uma fantasia de Rainha e escravo. O BDSM é uma espécie de teatro sexual. Pela Internet, a comparação com os RPGs (“Role Playing Game”, Jogo de Interpretação de Papel) é freqüente e, de fato, pertinente.

Quando estamos a sós, sou seu escravo, cachorro, puta, empregadinha, o que Ela bem entender. Quando saímos ou estamos acompanhado de amigos aí sou um “escravo moderado”: puxo a cadeira para Ela, sirvo-lhe a bebida, acendo-lhe o cigarro, abro-lhe as portas, etc. Quem vê, pensa que sou um cavalheiro. Essa é a filosofia que Ela me ensinou:

“Um cavalheiro em sociedade, uma puta na cama”.

Claro, há os momentos de descontração, vamos a bares, cinema, nos abraçamos, nos afagamos, nos acarinhamos, beijamos muito, somos apaixonados um pelo outro.

Enfim, somos nada mais nada menos que um casal normal que curte uma prática sexual nada convencional.

Edu: Já sofreu algum tipo de preconceito devido às práticas?

Roger: Eu não, mas minha Dona sofre da mãe dela (risos). Sua família sabe há muito tempo das suas preferências, então quando Ela apareceu comigo, já sabiam do que se tratava. Fui muito bem recebido, só que para minha sogra sou um anjo de candura que está sendo corrompido pela filha! (risos)

Quando saímos para “brincar” e levamos nossa maleta com nossos brinquedinhos, às vezes ela diz: “Lá vão com a mala dos doentes…”.

Edu: Já compartilhou de seus fetiches com mais pessoas em eventos ou num lugar reservado?

Roger: Sim, somos exibicionistas e adoramos encontrar “gente como a gente” para brincarmos juntos. Aqui em Fortaleza tem poucos, mas conhecemos pessoas legais em Natal e Recife. Quando minha Dona viajou para São Paulo (Ela é de lá) e Rio de Janeiro, se fartou!

A Rainha Frágil já me emprestou para amigas dominadoras, mas também já me disponibilizou para amigas curiosas experimentarem o S&M, para dominadores e uns amigos gays.

Também já nos expomos em festas swings, porém não me sinto muito à vontade. Passamos a realizar por aqui encontros BDSM com amigos e interessados onde compartilhamos informações sobre fetiches e os praticamos. Uma espécie de swing sem sexo. (Risos).

Há um ano, começamos a organizar a Profania (http://www.profania.com.br), uma festa sado-fetichista inspirada na Festa Fetixe, do Rio de Janeiro, e no Projeto Luxúria, de São Paulo. Tem sido muito divertido porque juntamos praticantes sado-fetichistas com pessoas não são “do meio”, porém curiosas e de mente aberta.

Não é por nada não, mas é super excitante lamber os pés, ter a bunda apalpada e apanhar de desconhecidos.

Edu: Qual sua prática preferida?

Roger: Feminização.

Lembra que eu disse sobre eu fantasiando com minhas amigas me vestindo de lingerie? A Rainha Frágil adorou a idéia. Eventualmente, Ela me veste de garota e me treina como uma escrava submissa. Antes de dormir, devo sempre escolher e vestir um belo conjuntinho de lingerie: calcinha, sutiã, meias, espartilho, luvas, etc. Na cama, parecemos duas lésbicas.

Não sei explicar direito, mas é altamente estimulante. Minha Dona diz que quando estou de garotinha, eu fico mais submisso e suporto melhor as punições físicas. E é verdade.

É o tesão (risos).

Edu: Já publicou fotos e vídeos próprios na internet?

Roger: Sim, tem fotos nossas no meu Orkut (http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=15243993370687125027) , nos blogs que a Rainha Frágil e eu mantemos, o atual (http://rainhafragil.wordpress.com) e o antigo (http://fragilreino.blogspot.com). Também há um vídeo onde minha Dona é entrevistada para um programa local e juntos realizamos uma cena BDSM (http://www.youtube.com/watch?v=9Oh6p-IomeU).

E há um que realizamos ANOS atrás onde Ela ensina como vestir uma “sissy” (escravo feminizado treinado a agir e se vestir de forma bem delicada): http://www.youtube.com/watch?v=w7sZEkDxja8.

Edu: Por fim, qual dica você pode dar pra quem está começando a trilhar este caminho?

Roger: Paciência e cautela.

BDSM é legal, entretanto não pode ser praticado de qualquer forma, nem com qualquer um. Pesquise, leia e converse bastante antes de mergulhar de cabeça nisso.

Na internet, recomendo o site da Desejo Secreto (www.desejosecreto.com) e sua comunidade Orkut, e a leitura de Out of the Shadows: About BDSM (www.sexuality.org/authors/lauren/AboutBDSM.html).

Por fim, recomendo vivamente o livro “Sem Mistério”, do Edge. Simplesmente o melhor livro nacional sobre BDSM. Para interessados, iniciantes e até mesmo para quem já possui experiência.

Encerro agradecendo.

Muito obrigado, povo do Sexxxethera!

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Comentários (2)

escravo roger{RF} Em 10 de dezembro de 2009 às 21:50

De novo, MUITO OBRIGADO!

Valeu! =D

Claudia Em 11 de dezembro de 2009 às 18:30

Roger é uma pessoa queridíssima de todos que o conhecem. Além de ser um cara educado, amigo, companheiro é um praticante de BDSM, singular( Singular, pq não existe para oa que convivem com ele e conhecem sua relação com a Rainha Frágil, qualquer coisa que vá de encontro à ética e comportamento perfeito, sim, perfeito!!) É um cara de caráter irrepreensível.
Tenho a honra de ser amiga e conviver com esse casal maravilhoso que gosto demais.
Beijo.

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